segunda-feira, 28 de julho de 2008

Nem os Deuses...

O dia está frio e vastamente deserto
A superfície das coisas está escorregadia.
Paralisado, impotente e insignificante, olho-o.

Imenso, imparável, portentoso, impetuoso...
o mar

Encerra o feitiço de chamar tudo a si,
o homem e as coisas,
como as sereias o faziam...

É um dos feitiços mais antigos na terra,
este que o mar tem sobre o homem,
esconde no rebentar das ondas um silêncio irresistível,
uma voz rouca, de paz,
que atrai o mundo, para o engolir.

As ondas, um mero truque de hipnotismo, vão e voltam,
rebentam na margem de quem somos, no limiar do suportável,
uma beleza inocente mas feroz,
sem o sabor a tempo, como se tivesse estado sempre ali... o mar.

Guardo as cartas que me escreveste
num lenço de seda tingindo de azul
da cor deste mar imenso,
inventado pelo olhar,
mas que corre, real,
nas veias da alma,

atei-as com um nó perfeito,
como se nunca tivessem sido tocadas,
quem me dera não as ter lido,
suplico eu agora à sorte.

Quem me dera que não me amasses também,
porque não me deixaste morrer com a amarga certeza que somente eu te amava,
fomos tão felizes enquanto pude imaginar tudo aquilo que íamos vivendo

Tudo aquilo que te diria em voz doce e quente pela manhã,
sussurrando ao teu ouvido por baixo do lençóis,
ainda mornos, arrefecendo do fogo.

Corria livre a imaginação,
fomos a todos os lugares mágicos,
e quando estes se esgotaram,
pintamos mais uns quantos, nas paredes deste quarto,
com as nossas mãos entrelaças, mergulhadas na tinta,
numa euforia ardente de prazer...
Mergulhamos nessas telas,
como duas crianças inocentes,
esquecidas do mundo.

Tudo isto sem sair de frente desta janela embaciada,
com vista para o Tejo,
na solidão fria deste quarto
que nem se faz aquecer pelo Sol,
que se derrete lá em cima, no castelo
e desliza por toda a encosta.

Fizemos amor sob uma chuva quente e forte,
dentro do fogo do Sol,
que se deitava sobre África,
pintaste-o tão grande, maior que o mundo,
uma enorme bola de fogo descendo no horizonte,
derretendo-se sobre nós.

Corremos os oceanos e a terra,
queimamos o Universo, rasgamos o infinito,
fomos até ao silêncio...
em busca da música...
condenados a uma simples troca de olhares,
sem nada dizer,
encerrando o entender da beleza.

Curioso como não procuramos respostas,
quando tal beleza nem nos permite perguntas

Dançamos nos prados de papoulas do sul da França,
se é que eles existem...
enlouquecendo com o seu pólen solto no ar
à passagem do vento que nos enrola um no outro.

Sonhava com os beijos longos
de olhos fechados de respiração presa,
em que somente tu existias,
o mundo a morrer atrás de ti,
atrás do último olhar para dentro dos teus olhos,
onde vejo o mar enrolado no encantamento de uma imperatriz,
divindade poderosa e distante,
com os segredos do mundo no respirar
e o domínio do silêncio e da magia no simples deslizar.

Tenho medo de ti nessas alturas,
como se não te possuísse por completo,
como se fosses pintura a guache,
de um rei reencarnado,
em que as lágrimas foram ensopando o papel
e misturando as cores
perdeste-te do teu reino,
esqueceste-te de quem foras,
e a tua alma agora perde-se.
Mas no interior profundo de ti,
por mais que não te recordes,
sabes não pertencer aqui,
devias voltar para algum outro sonho,
que este é demasiado real.
Mas não sabes qual,
estás preso as chamas infernais deste fogo!

O vermelho amarelo das chamas é hipnótico,
é como uma droga,
e o calor torna-nos moles,
vamos adormecendo,
e morremos a sorrir...

Mas eu vejo...
O mar reclama-te!
Nota-se quando estás perto dele,
o teu olhar aprofunda-se,
torna-se quase infinito.
O teu corpo recorda-se da paz,
vivida no silêncio frio das águas,
na companhia do infinito,
com o eterno a derreter-se na boca...
como é doce o mar...
salgado só o é para quem não sabe amar.

Mas vais ficando por cá,
de forma penosa,
na minha imaginação,
deixando o sabor líquido de ti, nos meu lábios,
inchados de prazer,
a tua respiração afaga-me o pescoço,
fazendo-me suar e tremer de amor!

Nunca trocamos mais que um olhar,
mas fomos a todos os lugares do impossível!

Mas porque tinhas tu que me amar também
Vivíamos tão felizes no meu sonho,
devias saber que os deuses não amam!
não tinhas o direito de desistir do teu império
e tornares-te de carne e osso, não tinhas o direito de sonhar,
não tinhas o direito de abdicar da divindade...
e morrer a meu lado...

Não me ames, por favor.

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